quinta-feira, 24 de maio de 2007

BINGOS, POR QUE NÃO?

A coluna Toda Política desta quinta-feira no JE.

Puxem da memória. O governo Lula estava prestes a regulamentar os bingos, em 2005, que já funcionavam à base de liminares, quando o assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, foi flagrado por câmera oculta negociando com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Pronto. Baixou o moralismo no governo Lula. De uma hora para outra, 300 mil empregos viraram pó e um negócio que poderia arrecadar R$ 600 milhões em impostos anuais aos cofres do governo foram por água abaixo.
Àquela altura, diga-se, havia mais de 1.200 casas de bingo em funcionamento nos vários estados do país. Exceção feita ao Paraná de Requião, que durante a campanha de 2002 havia mandado emissários a uma reunião com donos de bingos em que se discutiu doação de R$ 200 mil e, eleito, posara de adversário figadal dos jogos de azar.
Nas operações Hurricane e Têmis – repare, o número de operações da PF, mesmo em grande volume, continua sendo inversamente proporcional à criatividade dos agentes públicos para surrupiar os cofres da nação – estigmatizou-se o juiz feito corrupto por ação dos corruptores. E eles eram bingueiros e banqueiros. Do bicho, bem entendido. Os homônimos continuam benquistos.
Passou ao largo o fato de que o agente corrupto, ainda que ungido da toga, não precisaria de motivo extra, além do vil metal, para corromper-se. E este podia ser o jogo do bingo, a casa de massagem, a igreja do mundo de lá, a empresa do mato adentro. Corrupto é corrupto ponto.
As “otoridades” brasileiras gostam de discutir o efeito colateral. Mata-se um menor de forma vil e discute-se a maioridade penal quando deveria discutir-se a impunidade, esta sim uma praga social. Prende-se um juiz por vender liminares e culpa-se o bingo, a loteria, a tômbola, a víspora de paróquia. Ora, quem é mais culpado, o bingo que funcionava por decisão precária da Justiça ou o governo que se exime de regulamentar o jogo ou proibi-lo de uma vez.
No rastro das prisões e do espetáculo da mídia que ganham um novo personagem a cada semana, um jornalista escreveu, em tom de brincadeira: “Sou a favor dos bingos. Afinal, sem eles o que minha avó irá fazer nas tardes?” Nem é o caso. Mas se o jogo surge com uma carranca horrível para um governo que admite o cuecão, o dinheiro não-contabilizado, mas não admite que alguém aposte suas moedas em uma cartela, basta controlar o bingo, legalizá-lo, fiscalizá-lo e, para deleite do leão, tributá-lo. Ainda mais que é possível aferir as máquinas e nela inserir até o percentual de chances para que o jogador ganhe da casa.
Na minha modesta opinião, o bingo não é um bicho de sete cabeças. E, olha, pode garantir a alegria das nossas vovós.

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